
Que Portugal é um país periférico na indústria dos videojogos, isso penso que todos nós sabemos. Em termos de receitas que a essa origina em Portugal, relativamente ao total da Europa, pouco passa de 1%. Quando um país não é capaz de ser apelativo a um tipo de indústria pelo pouco lucro que dá, tem várias possibilidades para mudar a conjuntura: entre elas, investir e criar condições para que a indústria nasça de raiz no próprio país e transformá-la em exportação e não importação. Essa foi uma possibilidade discutida no ano passado com a possibilidade de criar estúdios para uma produtora de videojogos ligada à Microsoft, em Portimão mas a verdade é que nunca mais se ouviu falar de tal assunto e espero eu (e a comunidade, acredito, também) que não tenha morrido essa possibilidade. Outra das possibilidades é criar um produto genuinamente nacional. Para que tal aconteça é necessário haver mão-de-obra qualificada – pois o mercado é competitivo – e apoios, nomeadamente, do Estado. Quanto ao segundo factor parece ser inexistente no nosso país, ao contrário de nuestros hermanos mas os produtos estão a aparecer no mercado graças às grandes empresas nacionais que temos.
Menciono três videojogos made-in-Portugal que merecem destaque pela sua ousadia e qualidade técnica: Portugal 1111 - A Conquista de Soure (dos três, o jogo mais patriótico) da Ciberbit, Ugo Volt da Move Entertainment e Under Siege da Seed Studios. Todos estes jogos para plataformas diferentes, para mercados algo diferenciados e em diferente estado de produção. O primeiro foi um título lançado em 2004 para PC, o segundo é uma obra que ficou congelada, originalmente para Xbox 360 e PC e o último é um jogo de estratégia que está previsto para este ano, exclusivo para download na PSN.
Portugal 111 - A Conquista de Soure (2004)
Um jogo de estratégia ao estilo Age of Empires que tinha como particularidade, falar da História de Portugal de forma interactiva e com grande rigor histórico. A produtora fez questão de lançar uma parceria com o município de Soure e publicitá-lo em eventos próprios e de forma original em feiras medievais. Num press release, a produtora caracteriza o jogo da seguinte forma:
"O jogador controla inicialmente um pequeno grupo de pioneiros que atravessa a fronteira do Mondego para se instalar em território desocupado, sujeito a investidas frequentes dos mouros, na zona que hoje corresponde ao concelho de Soure. Para criar uma comunidade viável o jogador terá que gerir os recursos económicos, criando quintas e feiras, celeiros e moinhos, e terá também que se ocupar da defesa, construindo muralhas, torres de vigia e um castelo para protecção das populações. O aspecto espiritual também está presente: igrejas, capelas e mosteiros ajudam a manter o moral da população elevado e a conservar e transmitir conhecimento. O plano militar é muito desenvolvido, devendo o jogador gerir uma vasta gama de unidades e armas durante os combates, através de uma combinação de acção directa e de criação de regras de comportamento para automatizar acções - aspecto inovador neste tipo de jogos. O jogador pode assumir quer o lado cristão quer o lado mouro, usufruindo assim das características próprias de cada civilização."
A verdade é que o jogo tornou-se popular ao ponto de esgotarem as unidades em muitos postos de vendas espalhados pelo país. O jogo esteve disponível, em conjunto com a revista Visão a 22 de Abril de 2004, por 9,50€. Este foi o primeiro passo da indústria portuguesa dos videojogos na área da qualidade, inovação e reconhecimento nacional, ficando, no entanto, longe dos aplusos da comunidade e crítica internacional.
Ugo Volt (indefinido)
Este é já por muitos considerado como "a eterna promessa da indústria portuguesa dos videojogos". Ugo Volt tinha tudo para ser um jogo inovador e atractivo. Em produção desde 2005, com uma passagem pela E3 de 2006 (!), Ugo Volt acabou por ficar congelado em Março de 2008 devido a um corte no investimento. A Wikipedia conta-nos um pouco da história do jogo:
"Ugo Volt é um jogo da autoria de Rogério Varela, passado na Lisboa do século XXII, atingida pelo aquecimento global. Ugo, a personagem principal, é um protótipo ciborgue criado para ser clonado em massa mas revoltado contra a empresa que o concebeu, à partida forte e frio, mas à medida que encontra antigos discos de Amália e retratos de família nos escombros, o lado humano de Ugo começa a aparecer. Ao longo das várias missões de Ugo, pensadas para durar 12 a 15 horas, os jogadores serão confrontados com várias escolhas morais e, para aumentar o valor de replay, o jogo terá três finais alternativos".

Guilherme Santos, um dos responsáveis pela produção do jogo diz, no seu site, que:
"Ugo Volt é um videojogo First Person Action Adventure com um universo e ambiente tech noir. As personagens carismáticas, os poderes eléctricos únicos, o armamento avançado e a acção contínua, relatam uma história de suspense e intriga que conduzem o jogador entre dois fantásticos mundos: o real e o virtual. Ugo Volt é o nome da personagem principal. O olhar frio e misterioso, os poderes eléctricos e os implantes que substituem o cabelo, tornam esta personagem única no seio do vasto mercado dos videojogos".
Não é preciso ter experiência alguma para afirmar que Ugo Volt é, no mínimo, um projecto ambicioso. A julgar pelo que pudemos ver até hoje em imagens e vídeos, este era o jogo que, a ser lançado na altura correcta, ira abrir portas às produtoras nacionais de videojogos, ou pelo menos, a nossa indústria já seria vista de outra forma. Tudo isto se Ugo Volt não se tornasse na maior decepção dos últimos tempos, o que não levava a crer. Com a produção parada devido à falta de investimento, o título está parado até que alguém decida o que fazer com ele, até porque não se encontra na "estaca zero", pelo contrário, é um projecto que conta com três anos de produção. Terá sido todo este trabalho em vão? Temos que acreditar que este é um projecto que pode suscitar o interesse de quem tenha possibilidades de acabar a produção e lançar o título no mercado.
Under Siege (previsto para 2010)
Under Siege é um título da Seed Studios, empresa que até agora parece ter uma melhor estrutura organizacional e comunicação com a comunidade. Temos à nossa disposição, no site ofical, um diário de desenvolvimento do jogo que é actualizado mensalmente e cuja próxima entrada (Maio) trará já um vídeo com detalhes acerca do gameplay. É César Pinto, Community Manager, que se tem encarregado de trazer as novidades acerca deste jogo de estratégia em tempo real. Bruno Ribeiro, Lead Designer de Under Siege, descreve o jogo como :
"(...) apresentando um mundo original, elementos de jogabilidade únicos e com um esquema de controlos com base num comando de consola".
Estarão várias raças envolvidas no conceito do jogo, entre elas a humana: a mais jovem raça mas a que tem um armamento superior. O forte desta raça situa-se nas montanhas Ullar e teremos várias unidades a controlar: soldados (a força principal), arqueiros (imprescindíveis para ataques à distância) e os heavy cannon's (os "bruta-montes" de artilharia pesada).



Under Siege é um jogo de estratégia em tempo real que carece, ainda, de uma análise mais profunda do ponto de vista crítico que ainda não é possível dada a pouca informação disponível sobre o título. Pelo material disponibilizado (imagens) e pela história envolvente que parece oferecer, o jogo promete bastante. Será este o título português que mais irá vender? Será, provavelmente, a obra videojogável nacional com maior notoriedade a nível internacional, e uma coisa é certa: Under Siege já corre o mundo e deixa a comunidade ansiosamente à espera de mais informações acerca da jogabilidade e mecânica de jogo. O que é nacional, neste caso específico, parece ser muito bom!
Estes não, obviamente, os únicos títulos nacionais, longe disso. Só a Seed Studios tem dois títulos previstos para a Nintendo DS: Aquatic Tales e Sudoku for Kids (este último já disponível em PC) e a Move Entertainment trouxe, em 2007, Floribella: O Videojogo. A indústria nacional está a crescer, é um facto e também parece estar a fazê-lo, de uma maneira geral, de forma sustentável e que perspectiva um futuro a curto/médio prazo com mais obras vindas dos estúdios nacionais. No entanto, se o utilizador que está a ler este artigo pensa que poderá tirar um curso superior na área dos videojogos em Portugal, tal não parece que possa vir a acontecer tão depressa. Esta é daquelas áreas que só mesmo "lá fora para mais tarde cá dentro".







