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Análise: Eternal Sonata

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Embora já não seja muito comum, lá vem de vez em quando aquele jogo que nos surpreende e nos proporciona imensa horas de prazer quando achámos que nada mais o conseguirá fazer.
Foi há quase 2 anos que Eternal Sonata fez isso mesmo, apanhou-me a mim e muitos outros desprevenidos e afirmou-se como um marco no género, pelo menos nesta geração de consolas. Geração esta que está ainda meia desprovida de RPGs vindos da “terra do sol nascente”, mas bastante generosa no que toca à oferta de Role Playing Ocidental.

Vivendo o sonho:

A história de Eternal Sonata tem o seu Q.B. de bizarro e ao  mesmo tempo de épico, pois embora toda a narrativa se desenvolva de acordo com um sonho do famoso compositor Frédéric Chopin, o elenco de personagens, os cenários e a própria história em si, embora sempre ligados a Chopin, vão muito para além da referência à sua vida e carreira musical.

O sonho no qual o jogo tem lugar, desenrola-se nos últimos dias de vida do compositor, e durante o jogo somos constantemente visitados por pormenores reais acerca de Chopin. No entanto, a forma como o jogo apresenta esta parte documental não é de maneira nenhuma forçada e, de certa forma, o encaixe da fantasia com a realidade tem um tom único e distinto, o que sem dúvida alguma separa Eternal Sonata de todos os outros jogos em que a inclusão de personagens históricas é feita para complementar o enredo, ou criar  um ponto de encontro entre o concreto e o abstracto.

 
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Tudo em Eternal Sonata nos remete a Chopin, ao seu trabalho e à sua obra, no entanto, há muito mais para além do factual. O imaginário tem portanto um peso bruto enorme na narrativa final, e o vasto número de personagens fictícios intervenientes tem um contributo significativo no desenlace desta Sonata.

Temas recorrentes e contemporâneos como o romance, a inocência e a vontade de fazer o bem estão presentes e fazem equilíbrio com a parte madura da história, que acaba por ficar camuflada por entre a apresentação dócil e de carácter infantil, que tem tendência a iludir os menos letrados no género. Frédéric Shopin toma lugar no seu sonho, e vai aos poucos descobrindo, através das outras personagens que, como é tradição em Anime e nas histórias japonesas,  têm uma personalidade típica, o que leva a que cada uma seja o símbolo de cada um dos temas acima referidos.

Companheiros de viagem:
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De todos os que nos fazem companhia ao longo desta viagem, convém destacar Polka, a primeira personagem que tem contacto directo com Chopin no seu sonho, está destinada a morrer em breve, o que lhe permite ter o dom de usar magia e lhe dá a vontade de deixar a sua marca no mundo antes de partir. Este acaba por ser um paralelismo em relação à situação de Chopin que está numa cama à espera que o fôlego lhe acabe, para também ele partir. Mais tarde somos brindados com a antítese desta situação espelhada na cara de Alegretto e Beat, dois pequenos órfãos que sonham com uma grande aventura e com a oportunidade de salvar o mundo, e que vão por isso mesmo aos poucos juntando todo o cast de personagens que inclui, entre outras, Salsa e a sua inocência, Jazz e o sua perseverança, juntamente com Viola, Waltz e previamente indisponíveis na versão 360 o príncipe Crescendo e a Princesa Serenade.
 
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O que pretendo ilustrar com a evocação destes personagens é a forma como todas encaram a viagem que têm pela frente, o que dá asas à criação de relações muito fortes entre elas e, por consequência, o apelo sentimental que estas acabam por criar no jogador, que sem estar à espera acaba preocupado com cada uma delas.

Entre as lutas e a aventura:

Eternal Sonata é pela raiz um típico JRPG por turnos, o que implica a utilização de uma metodologia de jogo que data o principio dos anos 90 e parece hoje algo gasta, mas foi ai que surgiu uma das maiores surpresas do jogo. Embora o sistema de turnos funcione de forma tradicional, ou seja, ataco eu, ataca o monstro e assim sucessivamente, em Eternal Sonata é possível movimentar as personagens livremente pelo campo de batalha, e o sistema de ataque, que se baseia em usar 4 botões, com ataques e magias distribuídos por eles, a invés normalmente usado menu de navegação. Esta variante das batalhas por turnos traz uma maior sensação de controlo ao jogador, e permite um ritmo de jogo diferente, que embora tenha que ser na mesma estratégico, exige maior atenção e coordenação de tempo e ataques.
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Foi também introduzida a variante luz e sombra, em que os ataques de cada personagem são diferentes dependendo do facto de se encontrarem à sombra ou à luz do Sol. Com o evoluir das personagens este sistema permite a criação de novos estratagemas para as batalhas.

Embora seja possível termos imensas personagens na party, em batalha apenas podem ser controladas três, que por sua vez só podem ser alteradas no modo de exploração. O modo de exploração não está tão trabalhado como as batalhas, e Eternal Sonata peca por ai, pois todos os cenários incluídos no jogo, assim como todos os eventos, estão pré.definidos à partida, limitando assim a possibilidade de exploração assim como a vontade de voltar a jogar após terminar a primeira maratona.

Anime disfarçada de jogo?

É de louvar que Eternal Sonata tenha sido jogo pioneiro na aproximação do grafismo nos jogos com o grafismo presente nos desenhos animados, mais precisamente em Anime. Até 2007, altura em que foi lançado para a Xbox 360, não há memória de um titulo em que se tenha chegado a um resultado como este.

A forma de criar as personagens através de cell shading não é exclusiva desta geração, e já jogos como The Legend of Zelda Windwaker, Rogue Galaxy e a maioria dos jogos de Dragon Ball o tinham feito na geração passada, mas após ver Eternal Sonata a correr numa tela de 40” em HD, posso afirmar que nenhum dos titulos anteriores chega sequer a concorrer para este nível de perfeição.

Poder gráfico VS arte:

É terrível ter que fazer semelhante comparação, mas Eternal Sonata oscila entre o fabuloso e o medíocre no que toca a poder gráfico. Não esperem por texturas ultra detalhadas, cenários enormes e luxuriantes, ou mesmo um mundo totalmente em 3D.
Eternal Sonata usa o poder desta geração para criar algo simples no que toca a cenários e gráficos no geral, mas visto pelo lado artístico talvez nunca, salvo raras excepções, se tenha chegado a tamanho detalhe, desde os adornos das casas e templos, até mesmo à cor viva e animada das personagens, passando pelos cenários minimalistas mas ricos em  pormenor e chegando à espantosa disposição dos NPCs, que embora algo parados, ajudam a colorir o mundo, que por si só é uma obra de arte extremamente marcante no que toca a videojogos.
 
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A Serenata:

Este é mais um dos jogos que vai dividir a critica no que toca a performance dos actores encarregues das vozes. Ao passo que as vozes inglesas do jogo não estejam tão mal interpretadas como é costume nos RPGs asiáticos, também estão muito longe de algo como Mass Effect ou Metal Gear Solid, e levam por isso os puristas a preferir as vozes originais, em japonês. A boa noticia é que a versão integral está disponível e ambas as partes poderão jogar conforme preferirem, sendo que para as vozes em japonês estão disponíveis legendas e a alteração de inglês para japonês pode ser facilmente feita através do menu de configuração. Este é portanto um ponto que não vai fazer com que ninguém deixe de apreciar este titulo.

Eu não teria falado de Chopin e ele não estaria incluído no jogo se não fossem as suas espectaculares melodias. Não é portanto de estranhar que Eternal Sonata possua uma banda sonora de excelência, que varia por entre as composições de Chopin notavelmente interpretadas pelo famoso pianistas Stanislav Bunin, música orquestral de carácter épico e composições típicas do Japão, de melodia suave e austera.

Seria de mau gosto criticar Eternal Sonata pela música, pois se há parte em que o jogo brilha é na parte músical, que não tinha desculpa para falhar, não fosse Frédéric Chopin um dos melhores compositores de todos os tempos.

Comentário sobre jogo por quem já o jogou duas vezes:

Esta geração não tem sido muito generosa no que toca a bons JRPGs, salvo um punhado de jogos que foram lançados, é impossível comparar os números da geração anterior com os desta e é por esta razão que Eternal Sonata não deve passar ao lado dos fans. Embora esta não seja a história mais épica de todos os tempos, e este não seja o jogo com os melhores valores de produção de sempre, Eternal Sonata prima pela sua tentativa de individualismo e pela forma como se diferencia da restante oferta.

A minha opinião pessoal é a de que o Passado, embora não seja implicitamente o moderador do Presente, é um grande contribuidor e molda a forma como as coisas acontecem durante o “agora”. É por isso que agora Eternal Sonata já tem concorrentes de peso, e talvez possa já não estar munido da essência que o caracterizou em 2007 e é, de qualquer forma, importante relembrar que na altura o panorama dos RPGs era um tanto diferente do actual, e foi por isso que mesmo que o jogo me surpreendeu tanto.

Se pretenderem embarcar numa aventura algo familiar mas submetida a cirurgia plástica, procurem Eternal Sonata nas prateleiras e vão ver que se vão esquecer das horas bastante rápido.
 

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