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Análise: Heavy Rain

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Heavy_Rain

Ethan Mars é o pai de uma jovem família que parece ser a própria definição de uma família feliz. Vive com a mulher e os seus dois filhos ainda crianças numa bela casa, provavelmente por ele desenhada, com jardim para as crianças brincarem, e muita iluminação. A carreira de arquitecto é promissora, e o ambiente em casa é óptimo. Está um dia lindo, o sol brilha lá fora...

Será a última vez que veremos o sol brilhar no jogo. Um infeliz acidente que Ethan não consegue evitar, ceifa a vida de um dos seus filhos.

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Dois anos passam, e Ethan torna-se numa sombra daquilo que era anteriormente. Separado, vive numa casa sem cor, sem alegria, incapaz de ultrapassar a perda. De aspecto descuidado, parece que a sua única razão de viver é o outro filho, mas sente-se frustrado por não conseguir chegar a ele como dantes. A perda afectou toda a família.

Quando esse filho é raptado por aquele a quem chamam o Assassino do Origami, o desespero apodera-se de Ethan. O seu falhanço em conseguir salvar o primeiro filho dois anos antes, em conjunto com a possivel perda do único filho que lhe resta, criam uma situação emocional muito complexa, que se reflecte no desenvolvimento desta personagem. A Ethan será dada a possibilidade de salvar o seu filho. Mas a que preço? "Até onde irias para salvar alguém que amas?"

O Assassino do Origami é um assassino de crianças, que tem a peculiaridade de deixar um origami na mão das suas vítimas. Rapta apenas rapazes, cujos corpos são encontrados dias mais tarde, vítimas de afogamento. A polícia anda a investigar, com a ajuda do FBI. Norman Jayden é um agente do FBI e outra das personagens jogáveis desta história, tal como Ethan. Com uma forte dependência de analgésicos, Jayden também não é muito estável. Munido da mais recente (futurista, até) tecnologia, será com ele que iremos investigar o assassino, através da análise de todas as provas recolhidas nos locais de crime e ao longo do jogo. Mas não é apenas Jayden que anda atrás do assassino. Contratado pelas famílias das vítimas anteriores, Scott Shelby, um ex-polícia e agora detective privado também segue no encalce do Assassino do Origami. Por fim, Madison Paige é uma repórter interessada no caso que também acaba por se envolver na história.

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Estes quatro personagens são controlados sequencialmente pelo jogador, que os vai conhecendo melhor à medida que a história avança. Não são dadas explicações sobre cada situação, ou feitas as apresentações de personagens. A contextualização é feita apenas com o decorrer do jogo. Eventualmente os seus caminhos cruzar-se-ão (e aí controlaremos apenas uma delas), na busca pelo assassino.

A grande bandeira de Heavy Rain está na tomada de decisões de todas as personagens, que ficam a cargo do próprio jogador. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o jogador não tem o controlo do desenrolar do jogo. Tem sim a possiblidade de tomar opções pelos personagens. E nem sempre as opções tomadas têm o resultado pretendido. Desde a condução dos diálogos que influenciam a interacção com outras personagens, passando por acções tão quotidianas como fazer a barba e lavar os dentes, até às decisões de fundo que montam os alicerces para o desfecho final, tudo é conduzido pelo jogador. Claro que as acções mais quotidianas servem num primeiro momento de tutorial para a jogabilidade, e mais tarde ajudam apenas à imersão no ambiente (não fiquem a pensar que terão de controlar um "Sim" em todas as suas acções e necessidades).
Embora não pareça, são estas pequenas coisas que nos ajudam a imergir na história, sem contudo se tornarem monótonas.
Por outro lado, as grandes decisões tomadas, podem, em último caso, resultar na morte de qualisquer dos personagens, tal é o nivel de controlo que temos. Mas não é por isso que o jogo acaba. A morte de uma personagem terá impacto na história, claro, mas a vida (o jogo) continua...

Com tal liberdade nas opções de cada personagem, dificilmente se jogará Heavy Rain duas vezes da mesma forma. O jogo possui cerca de 20 finais diferentes, e os caminhos para lá chegar são também muito diversos. Este é, apelidado por mim, o jogo dos 'E se?'s. E se tivesse tomado outra opção? E se não tivesse feito isto? O que teria acontecido se...
São perguntas que vos farão provavelmente querer passar o jogo mais do que uma vez.

Estas opções são tomadas carregando nos botões (ou movimentos do analógico ou do próprio comando) que aparecem no ecrã, configurando cada um deles uma acção distinta. Na maior parte das vezes têm tempo para realizar todas as acções, mas nem sempre. Em situações onde a acção é maior, são usados quick time events. Ou seja, devem carregar atempadamente no botão que aparece no ecrã, sob pena de a acção pretendida não ser realizada e falharem o que quer que estivessem a fazer. Contudo, um erro ou dois não conduzem necessariamente a um resultado negativo, havendo muitas vezes um retrocesso ou perda de vantagem, mas que é ainda recuperável.

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O resto da jogabilidade é diferente daquilo a que estamos habituados, mas rapidamente se adaptarão. Por vezes torna-se um pouco dificil controlar a personagem em espaços fechados ou quando a câmara muda de repente de ângulo, mas no geral percebe-se a opção de querer ter uma jogabilidade também ela diferente do tradicional.

O ambiente do jogo é muito pesado. Para além dos questões emocionais que decorrem da própria trama do jogo, este ambiente tem três elementos chave. A chuva, sempre presente, a câmara, e a música. A banda sonora é de elevadíssima qualidade, e assenta que nem uma luva no ambiente do jogo. É, aliás, um dos pontos mais altos do jogo.
Já a câmara, contribui para o estilo cinematográfico do jogo. Raramente fixa, tem pequenas oscilações, quase ao ritmo da música lenta do jogo. Além disso, é frequente a câmara mudar várias vezes de ângulo, na mesma situação, fornecendo-nos diferentes perspectivas da mesma cena ou pessoa. E nota-se que não são perpectivas escolhidas ao acaso, pois os vários ângulos de cada cena roçam muitas vezes um enquadramento perfeito da situação, ou uma captura exacta dos sentimentos da personagem pela sua cara.

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Graficamente Heavy Rain presta um enorme detalhe às caras das personagens, de modo a permitir uma percepção correcta das suas emoções. Em relação aos cenários, variam muito na sua composição e aparência, não por falta de qualidade gráfica, mas porque existem cenários simplesmente vazios e sem graça, pois assim a história o exige. Uma ou outra falha não afectam o conjunto do belo trabalho visual realizado no jogo, no geral.

Com classificação PEGI para maiores de 18 anos, Heavy Rain não é na minha opinião um jogo para adultos pela presença dos habituais violência, nudez e droga, que os há, mas pela carga ética das decisões que cabem ao jogador. O jogo explora a linha do certo ou errado, e o que pode ou não legitimar determinadas acções num estado de necessidade. Mais do que os conteúdos visuais, as próprias questões que o jogo levanta (e pratica/simula) são questões complexas e adultas.

É de realçar que o jogo está totalmente localizado para português, com opção de legendas e/ou vozes em múltiplas línguas, sendo portanto possivel jogarem na versão original. Embora a crítica às dobragens portuguesas seja já da praxe, este esforço da Sony deve ser aplaudido, principalmente porque conseguiu reunir uma equipa de experientes e populares actores nacionais para emprestar a voz às personagens. Ainda para mais, num título que não é destinado aos mais jovens, como costumam ser os títulos com direito a dobragem. Esta opção da Sony tem custos, é certo, mas vem alargar o público-alvo do jogo e potenciar as vendas. Por alguma razão o mercado português é tão afecto à Sony/Playstation.

Heavy Rain é um título poderoso. Se filme, se jogo, parece-me uma polémica desnecessária. Pô-lo no campo do cinema leva apenas a comparações injustas, demasiado focadas no argumento e as suas possíveis falhas, quando este é um género com muito pouca história e desenvolvimento no campo dos videojogos. É um jogo, com fortes influências cinematográficas. Claro que é polémico por ser diferente, e poderá não agradar a todos. Mas não é por isso que deixa de ser uma obra bem feita, profunda e inovadora, que qualquer possuidor de uma Playstation 3 não deve deixar passar ao lado.

 

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