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A saga Football Manager dispensa apresentações. É um jogo que tem a característica particular de fazer desaparecer o tempo, de transformar longas horas em escassos minutos, sem darmos por isso. Quando se joga, imergimos numa “dimensão” onde a realidade do jogo e a nossa envolvência no mesmo deturpam a percepção da passagem do tempo, e as horas voam. Será responsável por algumas zangas de namorados, algumas faltas nos TPC's da escola, mas afinal de contas, essa é a própria prova do seu sucesso. E um grande sucesso.
Football Manager é futebol, no aspecto táctico e de gestão. Por isso, afasta logo à partida um público que perceba pouco do jogo-desporto, ou que não goste da vertente de gestão. Mas como um bom país latino que somos, Portugal transpira futebol por todos os poros -para o bem e para o mal-, logo o público alvo do jogo é muito extenso.
Um jogo de simulação de gestão de futebol levanta várias problemáticas. Começando pela dificuldade, esta tem de ser muito grande, pois muito grande a é na realidade. Se a meio do nosso campeonato nacional de futebol da presente temporada, apenas 5 treinadores em 16 equipas não foram despedidos, quer dizer que ao começarem um jogo em Football Manager, o despedimento é o cenário mais provavel. É só uma questão de quando. Mas os treinadores de futebol supostamente devem saberem bem mais sobre o jogo do que o comum dos jogadores de Football Manager. No entanto, todos queremos uma simulação o mais próximo da realidade, não? Talvez não. É manifesto que a grande maioria dos jogadores, ao invés de encarnar um treinador e gerir a sua carreira por vários clubes ao longo dos anos, prefere antes pegar num clube, e levá-lo até à glória, seja subir de divisão, ganhar a Champions... e ser o herói desse clube, não o trocando por outro. Por outras palavras, ser um Alex Ferguson.
Um raciocínio semelhante pode ser feito em relação aos resultados dos jogos. Se o Real Madrid fosse afastado da Taça do Rei por uma equipa da 2ª divisão B, ou se o Braga aparecesse em 1º lugar à frente dos três grandes, a meio do campeonato, diríamos algo de errado se passava com o jogo. Mas foi precisamente isso que aconteceu na realidade. O mesmo se aplica para as jogadas dentro de campo. O inesperado faz parte do futebol, logo tem de fazer parte do Footbal Manager. O que leva por fim que seja comum ver jogadores a queixarem-se de algo estranho que lhes aconteceu no jogo, ou coisas impossíveis que aconteceram e lhes estragaram os resultados. Bem vindos ao “Futebol Manager”!
Football Manager 2010 está feito de modo a agradar tanto aos jogadores com muitos anos de treinador de bancada, como aos que só agora começam a carreira. A vertente táctica do jogo pode ser explorada ao mais infímo detalhe, como também é possivel dar instruções mais gerais. E o apoio do staff, nomeadamente do treinador adjunto, não só na táctica como em imensos aspectos do jogo, com os seus sábios conselhos, permite que os jogadores mais inexperientes não se sintam tão perdidos. É mais que notório o reforço de descrições e ajudas acerca de cada componente da táctica, seus efeitos e consequências, o que se revela uma grande ajuda para pormos a equipa a jogar de acordo com o modelo que imaginámos.
As reuniões com o staff são uma constante, quer seja antes de um jogo para escolher a melhor abordagem, quer seja para debater alguns problemas do clube, ou para fazerem sugestões de aquisições de jogadores e staff, ou sugestões para melhorar o desempenho de determinado jogador.
Houve uma grande reorganização de menus e de localização das opções, o que pode causar alguma estranheza de início. Organizar o acesso a tanta informação não deve ser algo fácil de realizar sem confundir os jogadores, mas felizmente a nova organização é bastante intuitiva, e não deverão ter grandes problemas na adaptação.
O ecrã principal, dantes dando grande ênfase à caixa de correio eletrónico, agora reúne uma série de informações úteis ao manager, enquanto que as notícias ainda chegam pela caixa de correio, mas que tem de ser consultada.
Uma das principais novidades está nas instruções de posicionamento dos jogadores no campo. Não que antes não fosse possivel dar instruções individuais tendo em vista os mesmos objectivos, mas em Football Manager 2010 é agora possivel não só posicionar o jogador, mas dizer-lhe exactamente qual o seu papel e tarefa naquele lugar, de entre algumas opções pré-existentes. Ou seja, lá porque a posição “geográfica” de um jogador seja a de médio direito, não quer dizer que este não possa ter uma função de extremo direito, ou até de ala defensivo. Assim como alguém que joga à frente dos defesas tanto pode ser um trinco, como um médio defensivo, que não são a mesma coisa.
No jogo, é agora possivel dar instruções a partir da linha lateral, digamos assim, com um menu de acesso rápido. É possivel dar até duas orientações de uma série delas já pré definidas, sem ter de parar o jogo ou ir ao ecrã de equipa.
O motor de jogo 3D não é um regalo para os olhos, é certo, mas nem é esse o seu objectivo. Não contem com uma partida de FIFA ou de PES a correr dentro do FM. O visual é apenas q.b. , e a maior ênfase é dada ao realismo do futebol jogado e à IA. O motor de jogo é o mesmo que foi introduzido pela primeira vez o ano passado, mas é notório o melhoramento das jogadas efectuadas pela IA.
Um aspecto verdadeiramente fraco em Football Manager é o som. Só há o do público, nos jogos, e é mau. A melhor opção é mesmo desligarem-no, e se quiserem, deixar o vosso leitor de música habitual a correr em fundo.
A tradução para português, como infelizmente é já tradição, deixa algo a desejar, não sendo incomum encontrar várias falhas. Nada que diminua a experiência de jogo, contudo.
Podem contar de novo com uma base de dados de clubes, jogadores e staff simplesmente extraordinária. Esse trabalho de pesquisa é tão ou mais importante que o desenvolvimento do jogo em si, sendo um dos pontos fortes de Football Manager. Claro que nunca poderá ser 100% acertada, mas anda lá perto. Sendo a melhor base de dados de futebol do mundo, é usada por muitos clubes para obter informações de determinado jogador, isto segundo a própria Sports Interactive. Aliás, o Everton comprou os direitos, no ano passado, para poder usar a base de dados do jogo para recrutamento. (Mas a julgar pelo resultado do jogo contra o Benfica, não tiverem muito jeito para a usar...)
Football Manager é um jogo muitíssimo completo e complexo, que proporcionará longas horas, dias e semanas de diversão a todos os treinadores de bancada do país. Será dos jogos que mais baratos saem em função do tempo que se costuma passar com ele (e muito lamentamos que seja dos mais pirateados), e tem uma longevidade de, no mínimo, um ano (mais, se se aventurarem no mundo dos updates -oficiais ou não- de bases de dados, que costumam ser disponibilizados). Football Manager 2010 não traz novidades bombásticas, mas melhora aquele que já era o melhor jogo de gestão de futebol.

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